A projecção volumétrica de Portugal
Dizem-nos os antigos que um dos nossos primeiros nomes foi
Ophiussa, “terra das serpentes”. Esta associação denota uma orientação ctónica
preponderante, remetendo-nos para o Nadir, ponto imediatamente abaixo de uma
localização em particular.
Tendo ainda como referência os antigos, peguemos na velha
lenda que liga a fundação de Portugal, Irlanda e Escócia a um mesmo nome:
Gatelo. (1) De acordo com esta memória, terá sido da Galiza (sem a actual
divisão territorial) que partiram as comunidades que fundaram Irlanda
(Hibérnia) e Escócia. Esta relação não deixa de ser curiosa, tendo em conta a
proximidade cronológica dos monumentos megalíticos de Portugal e Irlanda, dos
mais antigos da Europa. Assim, a nossa segunda projecção terá sido para Norte.
Ter-se-á de esperar bastantes séculos para assistirmos a um
terceiro movimento. Foi aquele que nos levou para as costas de África, a Sul,
portanto. Bojador e Tormentas foram dois dos marcos desse percurso. Rota que
seria profundamente marcada nos Jerónimos, com a sua entrada principal voltada
para esse ponto, contrariando a tradicional entrada a Ocidente que permitia o
percurso do crente em direcção ao Oriente, onde se situava o altar.
Seguiu-se a quarta projecção para Este, com a tão celebrada
viagem de Vasco da Gama à Índia. Talvez o Brasil já tivesse sido descoberto
mas, por razões apenas supostas, é a notícia da viagem por mar à Índia que
surge primeiro.
Portugal desloca-se então, e no tempo mais curto em todos
estes percursos, para Oeste. É a descoberta , por “acidente” do Brasil, em
rotas que nunca foram acidentais. Por aqui ficaríamos na nossa projecção
horizontal. Norte, Sul, Este e Oeste já tinham sido alcançados.
Porém, faltava equilibrar o Nadir. Desta forma se lança
Portugal em direcção ao Zénite. Quinhentos, seiscentos e setecentos, foram os
séculos em que se constroem as bases da ideia de V Império e em que a
literatura mística prolifera.
Pensando neste desenho de percursos, percebemos que foi
esquiçado, horizontalmente, o sinal da cruz, tal como é feito no corpo do
crente: cabeça (Norte), coração (Sul); lado direito (Este); lado esquerdo
(Oeste).
(1) De acordo com a memória de textos escritos no séc. X (a
lenda poderá ser mais antiga), Gatelo nasce na Grécia. Por desentendimentos com
seu pai, rei de Atenas, viaja para o Egipto, onde casa com uma das filhas do
faraó. As pragas bíblicas vão consumindo
a sua pátria adoptiva pelo que Gatelo, juntamente com a mulher e alguns amigos,
navegavam pelo mediterrâneo, indo aportar a terras do noroeste ibérico, mais
especificamente à, depois assim denominada, Galiza. Por aí se instalam, fazendo
crescer uma comunidade próspera. Ouve então falar de uma ilha deserta mais a
Norte. Para aí parte levando consigo alguns companheiros, fundando a Hibernia. Daí
passam a Álbion, fundando a Escócia. Em todo este percurso, são acompanhados
pela pedra fadada, sobre a qual os reis eram entronizados. (veja-se Morais,
Gabriela, Lenda da fundação de Portugal, Irlanda e Escócia, Lisboa, Apenas
Livros, 2011)
