sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A projecção volumétrica de Portugal

A projecção volumétrica de Portugal

Dizem-nos os antigos que um dos nossos primeiros nomes foi Ophiussa, “terra das serpentes”. Esta associação denota uma orientação ctónica preponderante, remetendo-nos para o Nadir, ponto imediatamente abaixo de uma localização em particular.

Tendo ainda como referência os antigos, peguemos na velha lenda que liga a fundação de Portugal, Irlanda e Escócia a um mesmo nome: Gatelo. (1) De acordo com esta memória, terá sido da Galiza (sem a actual divisão territorial) que partiram as comunidades que fundaram Irlanda (Hibérnia) e Escócia. Esta relação não deixa de ser curiosa, tendo em conta a proximidade cronológica dos monumentos megalíticos de Portugal e Irlanda, dos mais antigos da Europa. Assim, a nossa segunda projecção terá sido para Norte.

Ter-se-á de esperar bastantes séculos para assistirmos a um terceiro movimento. Foi aquele que nos levou para as costas de África, a Sul, portanto. Bojador e Tormentas foram dois dos marcos desse percurso. Rota que seria profundamente marcada nos Jerónimos, com a sua entrada principal voltada para esse ponto, contrariando a tradicional entrada a Ocidente que permitia o percurso do crente em direcção ao Oriente, onde se situava o altar.

Seguiu-se a quarta projecção para Este, com a tão celebrada viagem de Vasco da Gama à Índia. Talvez o Brasil já tivesse sido descoberto mas, por razões apenas supostas, é a notícia da viagem por mar à Índia que surge primeiro.

Portugal desloca-se então, e no tempo mais curto em todos estes percursos, para Oeste. É a descoberta , por “acidente” do Brasil, em rotas que nunca foram acidentais. Por aqui ficaríamos na nossa projecção horizontal. Norte, Sul, Este e Oeste já tinham sido alcançados.

Porém, faltava equilibrar o Nadir. Desta forma se lança Portugal em direcção ao Zénite. Quinhentos, seiscentos e setecentos, foram os séculos em que se constroem as bases da ideia de V Império e em que a literatura mística prolifera.
Pensando neste desenho de percursos, percebemos que foi esquiçado, horizontalmente, o sinal da cruz, tal como é feito no corpo do crente: cabeça (Norte), coração (Sul); lado direito (Este); lado esquerdo (Oeste).



(1) De acordo com a memória de textos escritos no séc. X (a lenda poderá ser mais antiga), Gatelo nasce na Grécia. Por desentendimentos com seu pai, rei de Atenas, viaja para o Egipto, onde casa com uma das filhas do faraó.  As pragas bíblicas vão consumindo a sua pátria adoptiva pelo que Gatelo, juntamente com a mulher e alguns amigos, navegavam pelo mediterrâneo, indo aportar a terras do noroeste ibérico, mais especificamente à, depois assim denominada, Galiza. Por aí se instalam, fazendo crescer uma comunidade próspera. Ouve então falar de uma ilha deserta mais a Norte. Para aí parte levando consigo alguns companheiros, fundando a Hibernia. Daí passam a Álbion, fundando a Escócia. Em todo este percurso, são acompanhados pela pedra fadada, sobre a qual os reis eram entronizados. (veja-se Morais, Gabriela, Lenda da fundação de Portugal, Irlanda e Escócia, Lisboa, Apenas Livros, 2011)

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