Histórias Reais
1.
Nós, os
arquitectos de Veneza, também fomos crianças. E, como acontece a todas as
crianças, os nossos pais e avós sentavam-nos nos seus joelhos para nos contarem
as histórias maravilhosas da cidade de Constantinopla. Deslumbrávamo-nos com os
demónios articulados que viviam nas montanhas próximas ou com a terra líquida,
em eternos redemoinhos, dos seus planaltos.
Mas a nós,
que já nascêramos predestinados para a arquitectura exibindo o habitual sinal
de cor sépia em forma de compasso junto ao coração, deliciavam-nos sobretudo os
relatos das engenhosas construções do Oriente.
Pertencíamos
a uma geração especial. Sabíamo-lo desde muito cedo. Porque, nesse tempo, em
Veneza, todos nasciam com sinais corporais indicando a sua vocação. Mas nós,
aqueles que seriamos os arquitectos do futuro próximo, viéramos ao mundo com um
outro sinal: uma mancha, situada no meio da testa, fazendo lembrar uma nuvem.
No início, ninguém soube interpretar com exactidão esta indicação do destino.
Nem os que, por terem dois olhos nas costas das mãos, eram naturalmente
videntes. Diziam apenas que construiríamos uma cidade que não seria deste
mundo, sem adiantarem mais.
Os
sacerdotes, nascidos com um asa desenhada em cada omoplata, sabendo que não ser
deste mundo significa pertencer ao céu ou ao inferno, deram-nos uma educação
reforçada, assente no Princípio Fundamental da Construção em Termos Gerais,
composto pelos Dois Grandes Capítulos: A Compaixão por Todos os Seres e A
Sublimação de Toda a Matéria.
Em Veneza,
sabíamos ser impossível contrariar vocações e destino. Todavia, mesmo àqueles
que nasciam com a marca do sangue vermelho no fígado era-lhes reforçada a
educação no Primeiro Grande Capítulo. De qualquer forma assassinariam, mas
pensariam sempre duas vezes antes de o fazerem. Assim, não seriam criminosos
espontâneos.
O destino
também se cumpriu connosco. Numa mesma noite, sonhámos todos com a nossa
Veneza, aquela cidade que iríamos construir, para a qual fôramos predestinados
dentro da predestinação. E era uma cidade belíssima, suspensa nos céus, feita
de pedra timidamente polícroma, pormenorizada como uma lenda, comovente como um
paraíso acessível, misteriosa como um recanto escuro. Arte arrancada
abruptamente da sugestão etérea.
E assim a
construímos, sustentada por inúmeras colunas salomónicas, serpenteadas também
no seu interior por escadas em caracol que a ela davam acesso. Foi alicerçada
sobre terrenos instáveis. Sabíamos não haver outra forma de cumprir o seu
desígnio. Porque a nossa Veneza em sonhos encenada, mais do que uma cidade
magnânima, seria o pulso de toda uma civilização elevando-se em épocas áureas,
afundando-se em tempos de ferro.
1 comentário:
Gosto da reflexão sobre as marcas, os sinais, os destinos e as vocações. Sobre o que é desconhecido e nos deixa à toa.
Beijinhos
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